quarta-feira, 13 de março de 2013

Análise: papa latino-americano não deve mudar foco da Igreja na região


A Igreja Católica estava preparada para ter um papa latino-americano, mas isso não significaria um direcionamento de suas políticas para a região, apesar de a América Latina abrigar a maior população católica do mundo, disseram especialistas e religiosos à Reuters.
Para eles, a origem do novo pontífice será uma questão secundária no conclave de cardeais que elegerá o próximo papa, que deverá ter características firmes para enfrentar problemas administrativos, econômicos e éticos que envolvem toda a Igreja.
"Alguém que vem da região, que tem uma compreensão maior dos problemas daqui, vai ter um olhar mais atento, mas vai ter que lidar com Europa, com África, com Ásia, não poderá ser absorvido pela agenda local ou regional", disse o historiador José Oscar Beozzo, do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular Latino-Americano.

Jorge Mario Bergoglio

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Pier Paolo Cito - 18.abr.05/Associated Press
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Jorge Mario Bergoglio em missa na Basílica de São Pedro, no Vaticano, em 2005
Segundo o diretor da Faculdade de Teologia da PUC-SP, Valeriano dos Santos Costa, nas duas eleições passadas rompeu-se a tradição de eleger um papa italiano com a escolha de um polonês e um alemão, o que foi, na opinião dele, o início de um movimento para escolher um papa fora da Europa no futuro.
O segredo do conclave torna mais difícil considerar o que os cardeais esperam do futuro líder da Igreja Católica. Para Beozzo, "aumentou o leque das incógnitas... Seria salutar uma transparência".
Entre os cardeais da América Latina, as especulações apontavam para o gaúcho dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, como um dos prováveis sucessores de Bento 16, o primeiro papa a renunciar em seis séculos. A escolha do argentino Jorge Bergoglio, pegou o mundo de surpresa.
"Está cada vez mais claro que a Igreja aparece muito multicultural e está perfeitamente preparada para acolher um papa de qualquer origem", afirmou o padre Jesus Hortal, especialista em Direito Canônico da PUC-Rio.
"Se temos que fazer uma renovação, tem que ser gente completamente nova e, por outro lado, a América Latina tem um peso muito importante dentro da Igreja Católica", acrescentou Hortal.
Se for um brasileiro, os especialistas reconhecem que haverá uma comoção popular bastante grande, ainda mais porque a Jornada Mundial da Juventude acontecerá em julho no Brasil, país com a maior população católica do mundo, à frente de México, Filipinas, Estados Unidos e Itália.
No entanto, seja brasileiro ou de outro país latino-americano, isso não implicará, de imediato, uma mudança substancial da Igreja em relação à América Latina.
Participam do conclave 115 cardeais, oriundos de 48 países, que tinham menos de 80 anos na data da abdicação de Bento 16, no fim de fevereiro. Mas o número de representantes não é proporcional à população católica de cada região.
Também participam 14 cardeais da América do Norte, 11 da África, 10 da Ásia e 1 da Oceania.
BECO SEM SAÍDA
O novo pontífice assumirá uma Igreja tomada por diversos desafios, como promover uma nova evangelização, o convívio com outras religiões e fés, o escândalo do vazamento de informações confidenciais da Santa Sé e os abusos sexuais.
Mas para os especialistas, nada será mais desafiador do que lidar com a concentração do poder nas mãos do papa e da Cúria Romana, um movimento iniciado por João Paulo 2º e continuado por Bento 16 que, para Beozzo, deixou a Igreja "num beco sem saída".
No entanto, há um consenso entre especialistas e religiosos ouvidos pela Reuters de que o futuro papa não poderá fugir de uma agenda, que também inclui a migração de fiéis católicos para outras religiões.
No Censo 2010, o Brasil tinha 123 milhões de fiéis católicos, ou 64,6 por cento da população, enquanto os evangélicos somavam 22,2 por cento, sendo o segmento religioso que mais cresceu no país.
"Os cardeais podem decidir a eleição do papa, mas eles não podem adiar essa agenda múltipla que está se tornando gritante", afirmou Romano.

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